
“Naquela noite que eu chamei você fodia, fodia,
Mas naquela noite que eu chamei você
Fodia de noite e de dia...”
(Otto – Certas Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos)
Confesso que nunca fui um fã do músico pernambucano, na verdade eu achava que ele era até bom, mas carregava um ar Arnaldo Antunes, que parece que nunca dá certo no final sabe, a música começa bem e de repente plaft, vinha um verso tosco ou a voz estragava tudo. Mas dessa vez Otto me surpreendeu, talvez com o melhor disco dos últimos anos. A porrada do “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” é certeira, vai no nariz, quebra tudo e deixa o tapete ensaguentado. E o soco é amigo, vem aqui do Ceará (boa parte da força), da guitarra de Catatau, que mesmo lançando o “Uhuuu!” com o Cidadão Instigado (sua banda) não conseguiu fazer melhor do que fez com Otto.
Aliás, vou além, nunca vi tanta dor de cotovelo desde o disco Lóki, do Arnaldo Baptista que em muitas faixas podemos ver a depressão do mutante assim como a presença da Rita Lee no imaginário do Baptista mais Louco. Com Otto não é tão diferente, Alessandra Negrini fez um bem danado à música brasileira, talvez fez mais pela música do que pelas artes cênicas. Depois da separação conturbada com a atriz, o músico pernambucano ficou por aí perdido, recluso, tristonho, cultivando uma puta dor de cotovelo, mas, conseguiu atingir seu nirvana, sua musa inspiradora o levou a fazer um dos melhores discos dos anos 2000.
O bom é que dá um alívio, aliás, 2009 deu um alento aos céticos com a música brasileira, Arnaldo Antunes pariu uma pérola Iê Iê Iê, produzida por quem? Catatau, que com seu Cidadão, como já citei, produziu outro petardo, o Uhuuu! E tivemos outros como a Céu e o Caetano voltando com coisa boa... Mas, sem pestanejar, o disco do Otto fechou o ano de 2009 dando um tesão pra 2010, vamos ver se vem coisa melhor por aí.
Do disco, indico um épico total, que da vontade de tomar uma dose de “Ypióca” amarela e tirar gosto com siriguela, num boteco sujo, no centro da cidade, acompanhado do baixo meretrício... Ouça a faixa “6 Minutos”, onde Otto esbraveja encima das distorções de Catatau “Isso é pra morrer/6 minutos/instantes acabam a eternidade/isso é pra viver/momentos únicos/ bem juntos na cama de um quarto de hotel/e você me falou...” chega dar um dor! A maldita foi se embora... Porém, algumas faixas à frente, na música “Filha”, ele manda o verbo ao som de uma guitarra que lembra as guitarradas de Belém do Pará e o Otto conta pra ela “Aqui é festa amor/e há tristeza em minha vida” Versos gritados, que transformam esse segundo momento do disco num processo de delicioso sofrimento.
Com certeza, nos inferninhos da vida, vamos ouvir ainda muitos versos desse disco que já nasceu marcando tempo e dando um pé na bunda da primeira década, levando a gente pra 2010 com muita dor de corno.
Alexandre Greco

1 comentários:
Porra Grecco!! Muito bom, esse eu fecho com você de ponta a ponta.
André.
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