02 Março, 2010

O Olhar Contemporâneo do Pequeno Burguês.


Domingo, dia 28 de fevereiro, o De-Ver-Cidade fechou sua 4ª edição. Com o peso de principal mostra fotográfica da cidade o evento traz artistas de todo o Brasil e proporciona boas palestras e oficinas movimentando o meio artístico da cidade. Esse ano a mostra trouxe o tema do olhar contemporâneo.


A contemporaneidade, sobretudo na arte, ainda gera muitas discussões, talvez por alguns debates se apegarem simplesmente no tempo ou nas categorias da arte, afinal o contemporâneo é ou não uma categoria da arte? Essa celeuma eu deixo para outro fórum. O que gostaria de pensar é sobre a mostra em si.


Uma das coisas que achei estranho foi a decoração externa do galpão, todo em códigos de barra e numa estranha combinação de preto e verde limão. Pensei que fosse alguma intervenção da Lady Gaga. Só acreditei que era o Devercidade quando vi a entrada principal e a movimentação local. Engraçado, código de barra me lembra consumismo, valores econômicos, sei lá, coisas relacionadas à super mercados, shoppings...


Há quanto tempo eu não vejo um lambe-lambe? Por que o lambe-lambe, junto com o carrossel, não ficou dentro do galpão? Segregação contemporânea? O velho, lá fora, habitando o universo dos espetinhos e cervejas a 2 reais e o novo lá dentro, pagando 2,50 na cerveja quente e tentando enxergar as produções expostas nas paredes no galpão.


Quanto às exposições, no início da minha caminhada, fiquei um pouco apreensivo, afinal, a fotografia é impressa, como visualizar a fotografia com qualidade em projeções? Era só calibrar os projetores, mas não aconteceu, o que dificultou apreciar com plenitude algumas obras. Outro fator interessante era a quantidade de fotos por autor e o tempo com que elas passavam fato que induzia o olhar de quem esta apreciando. Era necessário esperar que todas as fotos se repetissem para podermos apreciar, de pouco a pouco a foto que nos chamou atenção.


Nem tudo estava ruim, algumas projeções ficaram legais e desafiaram o público a interagir com a imagem. A homenagem oportuna a Mario Cravo Neto e os debates e oficinas foram muito elogiados, especialmente, o debate com a Cia de Foto, que não faz nada de inovador, mas faz com uma paixão que não se vê facilmente. O fato das projeções não trazerem o nome do fotógrafo é também um fator interessante para já nos acostumarmos com a possibilidade da descoberta da arte pela arte, sem a interferência das referências.


Por fim, fica uma idéia que infelizmente a arte ainda continua voltando seus olhos pra si mesmos em um narcisismo inconseqüente que não leva a lugar algum. Falta ainda um olhar menos egocêntrico e mais coletivo. A burguesia refletindo sobre suas dores, mas nunca sobre sua culpa. Talvez falte um pouco de culpa.



Alexandre Greco



1 comentários:

Ilana Ramos disse...

Ótimo texto, porém devo discordar de você em alguns aspectos.
As fotografias em exposições nas paredes, com tempo para cada foto e até a quantidade de foto por autor, foi intencional. Acredito que a contemporaneidade não permite mais fotografias impressas e câmeras fotográficas analógicas. Não vou discutir qualidade, mas exposição. A quantidade de obras expostas no deVERcidade foi pioneira. Por isso os defeitos, que devem ser corrigidos ou piorados na próxima edição.
No entanto, pela quantidade de fotos e pelo tipo de exposição que a mostra utiliza, é possível você ir nos 5 dias de exposição e nunca ter a mesma experiência fotográfico-artística ao entrar na galeria. Isso é a contemporaneidade e, acredito, a proposta do evento.
Quanto à utopia de um "olhar menos egocêntrico e mais coletivo", acredito que ainda falta um bom tempo de estrada até o artista deixar o egocentrismo e a propriedade autoral de lado. Não colocar o nome do fotógrafo o tempo todo no PPS da exposição já foi um passo pra isso, não acha?