27 Abril, 2010

Politicarte!


Venho acompanhando de perto o cenário artístico local, talvez não tão de perto como deveria, mas próximo o suficiente para ocupar o espaço desse blog com algumas palavrinhas... Fortaleza, nesses últimos tempos, vem sofrendo um sopro contemporâneo nas linhas artísticas que atuam no cenário, - e observem que falo do cenário, não da cidade, essa ainda flutua inerte com sua roupa de domingo esperando que tire-a para dançar – música, teatro, audiovisual, literatura* entre outras. O fato é que muitos se escondem na coitada da contemporaneidade.


Há muito eu, e meu bom humor, assistimos aos filmes produzidos por uma galera recém formada da Vila das Artes, assim como os agregados; uns mais antigos, uns mais novos, enfim, como diria o Mautner “um amálgama de gente”. Todos felizes e contentes, produzindo um conteúdo voltado pra sua realidade, como um complexo pequeno burguês, fustigando seu mundo, tentando, dessa forma, se entenderem, como se fosse possível. Compartilho do pensamento de Rilke, onde nós temos que fustigar o nosso cotidiano, para assim, começarmos a descobrir o que de fato nos circunda, mas o problema mora na acomodação dessa “contemplação”. Todos os filmes romantizam demais tudo que parte de manifestações humanas, desde a separação, amizades, hábitos culinários - como se o cru e cozido já não fossem tão antigos no conhecimento da antropologia brasileira.


Então pergunto: cadê o resto da vida, cadê a arte como manifestação, sobretudo, política e social? Se vamos olhar pra dentro, negligenciando os aspectos culturais que vivemos, vamos ao menos botar lenha nessa fogueira morna que está aí, vamos pensar nossa cidade, nosso governo, os problemas e nossa luta ou apenas a apatia que nos cerca. Ver a beleza do amor, da amizade, embriaguez, o glamour dos nossos hábitos, enfim, manifestações pequeno burguesas, disfarçadas em contemporaneidade.


E não vamos ficar restritos apenas ao cinema, na música, que venho acompanhando mais próximo ainda, tenho visto excelentes músicos, que nos levam com beleza de seus acordes e força do seu canto a sua pequena vidinha cotidiana ou mesmo a pequenas manifestações de resistência sobre algo que nunca viveram. Poucos os que arriscam, pouquíssimos! O resto é muita “punheta”. Num ano tão recheado de decisões e de mobilizações sociais, a classe artística anda capenga de olhar, não exercem o olhar estrangeiro sobre sua própria cidade, se cercam em seus bairros, dependem da prefeitura, não ocupam mais lugar nenhum e aparentemente. Não entendem que vivemos numa Atenas e podemos ser a luz aos idiotas (no grego o idiota se refere ao cidadão que se ausenta da vida pública, o que implica as decisões públicas e etc... Na verdade o idiota é individual, sujeito privado), mas por enquanto ainda somos os idiotas mesmo.


A arte e a política devem sempre manter uma linha tênue, pois ambas abrangem mais do que nós pensamos, a arte só transformou quando esteve estritamente ligada e não como hoje, negada, a política.


* A literatura, vira e mexe, ainda persegue esse olhar, mas esbarrou na falência do meio, porém há de mudar...

1 comentários:

Leonardo Sá disse...

"A construção da vida, no momento, está muito mais no poder dos fatos que de convicções. E aliás de fatos tais, como quase nunca e em parte nenhuma se tornaram fundamento de convicções (...) A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas, que correspondem melhor a sua influência em comunidades ativas que o pretensioso gesto universal do livro, em folhas volantes, brochuras, artigos de jornal e cartazes. Só essa linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento" (Walter Benjamin).