07 Maio, 2010

Essa coisa da gente ser o que é...



Confira

Tudo que

respira

conspira


Fui assistir Utopia e Barbárie, filme do documentarista e historiador Silvio Tendler; na verdade, mais historiador que documentarista. O legal do filme é que ele traz vários trechos de filmes que constroem um pouco dessa história dos últimos 40 anos, trechos de Rosselini, Bruno Muel, Arcand... Cenas fortes e impactantes, de um cinema mais voltado para o político social, especialmente aquele filme sobre o início da ditadura de Pinochet no Chile, a queda de Allende (voltarei a esse ponto). O Silvio produziu alguns filmes que, todo mundo que teve um professor de história meio de esquerda (como é o meu caso) passava na sala de aula, escondido da coordenadora, são eles o JK, Jango o do Maringhella, mas tem um mais pancada ainda, o filme que ele fez com o Milton Santos: “Encontro com Milton Santos ou o Mundo Globalizado Visto do Lado de Cá”, filme bacana que na época da faculdade mexeu muito com a minha cabeça, a ponto de fundarmos um diretório acadêmico e produzirmos a semana de comunicação com o tema Milton Santos, sem verba, sem porra nenhuma, mas deu certo, ocupamos a faculdade com aquele ar Maio de 68, ou um protótipo disso aí.


E é mais ou menos sobre 68 que o Silvio pauta esse documentário, ele nos traz essa onda dos sonhos perdidos, aliás, de como os sonhos daquela geração foram sufocados pelas barbáries que se atrelavam a eles. Começa desde o fim da segunda guerra, a ocupação dos judeus no estado de Israel, onde eu confesso que achei brando o olhar do Tendler, até por que ele é judeu, mas fez seu papel, minimamente, mostrou um belo trecho do filme de Amos Gatai, mostrando o quanto os árabes foram negados, em sua própria terra. É preciso lembrar que esse filme é produzido há 19 anos, deu tempo pra ele entrevistar muita gente tipo Augusto Boal, Susan Sontag, Eduardo Galeano, Ferreira Gullar, José Celso Martinez, líderes estudantis, militares, professores, cerca de 50 entrevistados, gente pra caramba. O filme também conta com distorções no áudio e na imagem, muito legal, levou a gente pra outro nível de sensação, tanto que a própria molecada que tava no cinema, que acho que o filme serviu pra alguma avaliação (de um professor de história aposto), curtiu o filme, comentou as imagens e se deixaram levar pela poética fílmica. Achei bacana você se doer por algo que não viveu, ta aí a beleza da história. Marx tem um pouco de razão...


Tudo é vago e muito vário

meu destino não tem siso,

o que eu quero não tem preço,

ter um preço é necessário,

e nada disso é preciso


Em e pós 68 fica claro como vivemos, como diz o próprio Tendler no filme; uma gozada mundial! Momento de total êxtase, a revolta estudantil na França começa dentro de uma universidade, por conta da distância dos dormitórios femininos dos masculinos, na terra do amor (como dia o Silvio) a molecada ficar sem poder dar uma é um pecado que mexeu com as estruturas morais de um país que pregava a intelectualidade e o progresso (difíceis de andarem juntos não?). A porrada come solta, em todos os países, galera com baladeira na mão, atirando contra policiais armados e violentos, aliás, muito violentos os guardinhas de antigamente heim, uma raiva que não se sabe de onde vem. Aqui no Brasil não é diferente, os estudantes se juntam e acreditam que seus sonhos são as verdades e lutam contra a ditadura, buscando a democracia. Em cuba, embargos econômicos, na China revolta contra os revoltados da revolução cultural de Mao Tsé Tung, Argentina sobre ditadura, Argélia buscando independência, os E.U.A envolvidos numa guerra onde a imagem fez o diferencial, um Vietnã forte, comunista, sobrevivendo como pode, aos ataques de Napalm, enquanto isso, nos Estados Unidos, os negros e bitniks se revoltam contra o estado.


Mas o que mais fica de impactante é o trecho sobre a queda de Allende, no Chile, um episódio que eu confesso que nunca entendi direito: um presidente popular, socialista, eleito de forma democrática, que tinha uma maioria devastadora de votos e, em poucos anos, sofre um golpe de estado, não se entrega e é assassinado pela ditadura de Pinochet, que matou milhares de pessoas, muito mais gente que o Brasil. Por quê? Daí o filme do Silvio me parece esclarecedor; a própria esquerda, que estava no poder, se segmentou e começou a brigar entre si, o presidente, que nada pode fazer, ficou isolado do seu próprio grupo. O filme prossegue com a tomada de Pinochet e a morte (de desgosto) de Pablo Neruda, o povo vai ao seu enterro e canta:


“Pablo Neruda, presente, agora e sempre! Povo chileno, presente, agora e sempre! Allende, presente, agora e sempre! Pablo Neruda, presente, agora e sempre!”.


E então, temos o caminho final (?) a Perestroika e a Glasnost (brochada histórica), que também aprendi nas aulas do meu professor de história, mas me lembro dessas duas palavras acompanhadas do semblante triste desse meu professor. A barbárie veio como nunca, mas em outras formas mais subjetivas e por isso, mais violentas. A utopia, sobretudo Marxista, da qual o Silvio Tendler não engana ninguém que é, morreu na boca voraz do consumismo, na individualização e na globalização que, sob o ponto de vista econômico colocaram fim as utopias, mesmo com o movimento de Seattle, a barbárie ainda predomina, talvez por sermos homens e sempre, bárbaros, por impormos de maneira violenta a nossa utopia. Eduardo Galeano, por fim, explica muito bem o quanto a história é lenta e nós, às vezes, muito afobados, não entendemos o quanto ela é lenta, caprichosa e cínica.


Isso de querer

ser exatamente aquilo

que a gente é

ainda vai

nos levar além...


(Poemas de Paulo Leminski)


Alexandre Greco


1 comentários:

Ilana Ramos disse...

Texto simplesmente maravilhoso. Tendler iria adorar se você fosse o resenhista do filme. rs
Você entendeu e captou pontos do filme que eu não tinha percebido. Esclarecedor. Assim como o próprio filme, que conseguiu resumir as histórias das utopias e das barbáries da história de nosso mundo em um documentário simples e ao mesmo tempo extremamente complexo.
É um filme para se rever e pensar. Pensar no passado, presente e futuro com um olhar avaliativo e crítico. Recomendo.