- Eu achei que poderia... Ao menos uma última vez.
- Acho que não! Dói; você não lembra como essas coisas são doloridas?
- Lembro sim.
- Pois é...
Silêncio
- Eu achava legal passear com você na praia, lembra? Antes de TUDO existia aquela praia, fora da cidade, fora de órbita, e tinha tanta gente querendo você, eu não imaginava a gente junto, pensei que você se interessava por outro tipo de homem e eu, sabe, apesar do tamanho, acho que ainda não cresci muito né?
- É você não cresceu. Mas você já era tão grande, não precisava disso tudo.
- Eu lembro de um vestido branco, aliás, lembro – antes que se apague – do short jeans curto, blusa branca e cabelos amarrados, seus óculos eram grandes e o sorriso sem graça. Mas você era absurdamente linda, meu fôlego, sabe, bem... Perdi o meu fôlego.
- E caiu.
- Pois é, caí, cai bem fundo, tentei me agarrar nas paredes arredondadas do poço, mas não deu. Então sabe né, foi bem ali, ali naquela sala onde nos apresentamos e eu te contei tanta coisa, sobre cinema, sobre Godard, Truffaut e Novelle Vague, contei tudo que me inquietava por que você me inquietava também.
- Eu gostava daquele seu carinho na testa, sabe, tudo dessas novas coisas e eu nem pensava nisso quando você fazia aquele carinho, eu meditava, acho que o mundo parava de rodar, acho que a...
- Você curtia esses carinhos, você fechava os olhos e sua respiração mudava, ficava leve, serena. Eu achava que as coisas estavam em seus devidos lugares e nós não tínhamos problemas.
- Hoje temos tantos né?
- É
- Família, Carreira, projetos, grana... E tudo sempre vai existir.
- Vai, não tem jeito.
- É
Silêncio.
Ele se deita na barriga dela, enquanto ela está sentava, olhando a areia ou neve.
- Você ainda adora deitar na minha barriga né?
- São os barulhinhos da barriga sabe, eu gosto de ouvir, gosto de ouvir você, sua voz é meio irritante, mas eu me acostumei, a gente se acostuma sabe, no começo estranha, mas acostuma, por que a gente ama e esquece desses detalhes, nós somos meio idiotas, aprendemos a amar os detalhes humanos. Aprendemos a gostar dos defeitos.
- Eu não gosto dos seus defeitos.
- Eu sei. Mas não são meus defeitos, não sou desse jeito. Tropeçei algumas vezes, mas tive que tropeçar sozinho.
- Não, por favor, sem essa, estive com você nesse tempo todo.
- Onde você estava, te procurei, fiquei no escuro, tive que pensar sozinho e você sabe que não sei fazer isso, meu defeito é esse, sou fraco, covarde, não sou mentiroso ou omisso, sou fraco e tinha medo de perder o que já havia perdido.
- Você poderia ter confiado.
- Poderia.
Silêncio.
Ela se levanta e bebe alguma coisa. Ele segura o choro, ela senta do lado dele e dá um soco em seu ombro. Eles riem.
- Mas ainda te amo boboca.
- Eu sei disso.
- Metido...
- Mas é porque as coisas não se vão assim
- Mas eu vou
- Já foi?
- Ainda não.
- Então fica.
- Por quê?
- Não sei, só fica comigo hoje.
A bebida está quente demais, o dia está frio demais.
- Odeio cerveja quente
- Eu sei, você diz que eu bebo muito, mas você é toda entendida de cervejas.
- Você bebe muito mesmo.
Silêncio
- Tento te esquecer.
- Eu também.
- Sabe o que faço para te esquecer?
- Imagino e não quero saber.
- Não é isso, eu te esqueço escrevendo sobre você.
- Tem dado resultado?
- Não.
- Por quê?
- Por que ainda te sinto e te escuto, você permeia os sentidos. Você é horrível, queria que você sumisse.
- Não queria.
- Queria.
- Você não queria que eu fosse...
- Pára! Você foi, você acabou indo e eu?
- Ficou.
Silêncio
- Você um dia volta?
- Não, você um dia vem?

3 comentários:
Não sei porque lembrei-me de Nome Próprio. O filme.
Eu adoro quando você escreve. E eu queria que você escrevesse mais.
Brincar com as palavras, algo q vc faz com maestria, até mesmo quando esta desnudo, cortando na sua própria carne, expondo suas dores, perdas... Que o brincante seja sempre seu melhor brinde a vida!!!!
Ainda bem que a Li divulga você, ou eu demoraria mais pra encontrar esse blog.
Estou encantada!
Postar um comentário