28 Janeiro, 2011

Silêncio 5 x

- Eu achei que poderia... Ao menos uma última vez.

- Acho que não! Dói; você não lembra como essas coisas são doloridas?

- Lembro sim.

- Pois é...

Silêncio

- Eu achava legal passear com você na praia, lembra? Antes de TUDO existia aquela praia, fora da cidade, fora de órbita, e tinha tanta gente querendo você, eu não imaginava a gente junto, pensei que você se interessava por outro tipo de homem e eu, sabe, apesar do tamanho, acho que ainda não cresci muito né?

- É você não cresceu. Mas você já era tão grande, não precisava disso tudo.

- Eu lembro de um vestido branco, aliás, lembro – antes que se apague – do short jeans curto, blusa branca e cabelos amarrados, seus óculos eram grandes e o sorriso sem graça. Mas você era absurdamente linda, meu fôlego, sabe, bem... Perdi o meu fôlego.

- E caiu.

- Pois é, caí, cai bem fundo, tentei me agarrar nas paredes arredondadas do poço, mas não deu. Então sabe né, foi bem ali, ali naquela sala onde nos apresentamos e eu te contei tanta coisa, sobre cinema, sobre Godard, Truffaut e Novelle Vague, contei tudo que me inquietava por que você me inquietava também.

- Eu gostava daquele seu carinho na testa, sabe, tudo dessas novas coisas e eu nem pensava nisso quando você fazia aquele carinho, eu meditava, acho que o mundo parava de rodar, acho que a...

- Você curtia esses carinhos, você fechava os olhos e sua respiração mudava, ficava leve, serena. Eu achava que as coisas estavam em seus devidos lugares e nós não tínhamos problemas.

- Hoje temos tantos né?

- É

- Família, Carreira, projetos, grana... E tudo sempre vai existir.

- Vai, não tem jeito.

- É

Silêncio.

Ele se deita na barriga dela, enquanto ela está sentava, olhando a areia ou neve.

- Você ainda adora deitar na minha barriga né?

- São os barulhinhos da barriga sabe, eu gosto de ouvir, gosto de ouvir você, sua voz é meio irritante, mas eu me acostumei, a gente se acostuma sabe, no começo estranha, mas acostuma, por que a gente ama e esquece desses detalhes, nós somos meio idiotas, aprendemos a amar os detalhes humanos. Aprendemos a gostar dos defeitos.

- Eu não gosto dos seus defeitos.

- Eu sei. Mas não são meus defeitos, não sou desse jeito. Tropeçei algumas vezes, mas tive que tropeçar sozinho.

- Não, por favor, sem essa, estive com você nesse tempo todo.

- Onde você estava, te procurei, fiquei no escuro, tive que pensar sozinho e você sabe que não sei fazer isso, meu defeito é esse, sou fraco, covarde, não sou mentiroso ou omisso, sou fraco e tinha medo de perder o que já havia perdido.

- Você poderia ter confiado.

- Poderia.

Silêncio.

Ela se levanta e bebe alguma coisa. Ele segura o choro, ela senta do lado dele e dá um soco em seu ombro. Eles riem.

- Mas ainda te amo boboca.

- Eu sei disso.

- Metido...

- Mas é porque as coisas não se vão assim

- Mas eu vou

- Já foi?

- Ainda não.

- Então fica.

- Por quê?

- Não sei, só fica comigo hoje.

A bebida está quente demais, o dia está frio demais.

- Odeio cerveja quente

- Eu sei, você diz que eu bebo muito, mas você é toda entendida de cervejas.

- Você bebe muito mesmo.

Silêncio

- Tento te esquecer.

- Eu também.

- Sabe o que faço para te esquecer?

- Imagino e não quero saber.

- Não é isso, eu te esqueço escrevendo sobre você.

- Tem dado resultado?

- Não.

- Por quê?

- Por que ainda te sinto e te escuto, você permeia os sentidos. Você é horrível, queria que você sumisse.

- Não queria.

- Queria.

- Você não queria que eu fosse...

- Pára! Você foi, você acabou indo e eu?

- Ficou.

Silêncio

- Você um dia volta?

- Não, você um dia vem?

3 comentários:

Moreira disse...

Não sei porque lembrei-me de Nome Próprio. O filme.
Eu adoro quando você escreve. E eu queria que você escrevesse mais.

Eveline disse...

Brincar com as palavras, algo q vc faz com maestria, até mesmo quando esta desnudo, cortando na sua própria carne, expondo suas dores, perdas... Que o brincante seja sempre seu melhor brinde a vida!!!!

Lucy, disse...

Ainda bem que a Li divulga você, ou eu demoraria mais pra encontrar esse blog.

Estou encantada!