
Já fazem 3 dias do ocorrido, pra quem não sabe, fui assaltado, ali na João Cordeiro com a Pinto Madeira, na terça-feira de carnaval. Engraçado, não tinha saído um dia sequer para curtir o carnaval de Fortaleza, em parte, pela frustração da não ida ao Rio de Janeiro, já que eu havia montado um aparato e por fim, nada vingou. Então, resolvemos curtir esse último dia de folia, vestir a máscara de pierrot, manta de caboclo de lança, os chapéus de bobo da corte e os óculos e nariz de Groucho Marx, fantasiados, eu e a ruiva, fomos direto pro Sanatório Geral, interagir com a cidade, encontrar os conhecidos, amigos e figuras que a gente conhece por aí, foi ótimo, festa bacana, bem estruturada, banheiros químicos suficientes, pessoal brincando com a família, enfim, tudo nos conformes da ludicidade que a festa permite.
Depois do almoço, uma pausa e fomos, no fim da tarde, para a Mocinha, ali na João Cordeiro quase Monsenhor Tabosa, um dos melhores pontos da cidade e, de fato, estava perfeito, encontramos vários conhecidos bebemos e rimos bastante, como a festa permitia, estávamos devidamente acanalhados, perfumados e dispostos. Fui a forra e descontei a raiva da ausência carioca na Skol que descia redonda e gelada. “Não é qualquer carnaval, não é qualquer litoral que faz a minha cabeça não...”. Saímos soltos na buraqueira, brincamos com todo mundo, e descemos a ladeira da preguiça alencarina rumo ao show da Teresa Cristina. Lá em baixo, mais amigos, mais combustível por que o bonde não podia parar...
... Mas parou, e antes do previsto.
“Festa estranha com gente esquisita” nada mais ficou legal, era hora de puxar o barco e subir a ladeira da preguiça de novo, eu carregando ela e ela me carregando, a gente subindo pra contar lá em casa que esse mundo é uma maravilha, dançando, os dois, nos risos que galvanizam os sentidos e nos beijos que desatam naturalmente. Então fomos subindo, chegando novamente a mocinha, encontrando alguns casais espalhados e gatos pingados por aí, gente nas esquinas, escuridão e aquela cara de cinza, gosto de mofo, cidade voltando ao normal e então o susto.
Como no conto do João do Rio, os nossos bebês de tarlatana eram de fato deformados, cabeças grandes, corpos iguais, bermudas iguais, motos iguais, armas iguais, vozes iguais... Bem, eu de brincante, achei ser tudo uma alegoria própria do carnaval, continuei andando, dançando e brincando, mas eles, turvos, foram menos lúdicos e acordaram a cidade, dois tiros pra lugar nenhum ou pra alguma cabeça desavisada.
- Passa tudo!
Levou tudo, meu e dela, deixou um chute em minhas pernas, um joelho machucado, alguns dias de angústia, impotência, as lágrimas da ruiva, fiquei ali, no chão, na chuva, esperando alguma reação do joelho, ele, com a arma ainda pensou com a banalidade de um bang bang americano se iria ou não, dar um tiro, mas mesmo com o incentivo do amigo, desistiu e partiu pra ladeira. Não sei se como no conto, seus narizes caíam ou suas faces deformadas realmente nos levassem ao susto, abismo. Talvez eu devesse avisar ao policial que me perguntou como eles eram que ali, naquela moto, iam dois bebês de tarlatana rosa.

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