
Preservo ainda aquele olhar, que acompanha a luz invadindo sorrateiramente a sala de estar, e todos não estão lá. A luz que rebate na TV e aloja nos cristais e porta retratos que paralisam o tempo e nos remetem a memórias, não minhas. A luz não penetra o corredor, ele, permanece intacto, guardando o cheiro de noite e escondendo os rastros noturnos que ainda marcam as paredes brancas. Dormem cada um em seu quarto; duas metades inteiras e uma inteira metade.
Quando acordam, colorem o corredor com palavras, muitas delas, jogadas, desperdiçadas, sim, digo isso por que eu, quarto habitante, apesar de muito maltratá-las, elas ainda percorrem aqui dentro um ciclo vicioso de vida e morte, o que me permite acessar, vez ou outra, como agora, as reservas de palavras que guardo na barriga. Eles não, despretensiosamente derramam pela sala, esfregam os móveis com palavras e existência.
A existência deles é rara, são espécies que se locomovem devido um visco entre eles, deslizam na mucosa conjunta, que os conduzem pra lá e pra cá. Eu não sei, serei o que aqui? Um estranho aparecido em abiogênese, um estudioso, claramente incapaz de determinar a razão dessas espécies. Ou quem sabe, eu seja a manifestação do não vivo? Mas não, o visco puxa, em determinados momentos você se locomove na dança deles e se sente como um palíndromo: “Sator Arepo Tenet Opera Rotas” somos iguais, em determinado momento, das mais variadas formas que nos dispusemos ainda manteremos essa liga, viscosa, entre nós, que nos impulsiona.
A sala permanece silenciosa, eles ainda não acordaram, continuam em suas acrobacias noturnas, nas suas manobras lúdicas, que permeiam os sonhos, incautos, desafiadores, insanos. Vou na cozinha, beber um copo de chá, pois devido as muletas, fica complicado preparar o café.

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