25 Outubro, 2011

Pulmões e Cérebro

Parei de acreditar em Deus. Foi uma decisão difícil, alguns lutaram pela minha permanência sob a tutela do mistério, outros, menos crentes, apoiaram o “livre arbítrio”. Não conversei com muitas pessoas, decidi sozinho, num desses últimos dias nublados que acontecem em Fortaleza essa época do ano. Estava caminhando a beira do mar, vendo os arranha-céus e imaginando como me protegeria de um tsunami, caso acontecesse algum em nossa costa. Na caminhada, contei alguns passos, olhei pro lado, mulher amada; feliz devido o sol que naquele horário faz bem a pele, algo com melanina, acho que era isso, pois enquanto ouvia sobre a importância do sol naquele horário, só pensava no cheiro horrível de protetor solar que exalava de cada pessoa com quem eu cruzava na curta calçada no início da caminhada. Descobri que meus pulmões estão se interligando, de maneira promíscua, ao cérebro: Caminhar + Respirar = Pensar.

Atento aquilo tudo que saltava a cada passo, continuava na árdua decisão de continuar ou não acreditando em Deus. Refletia sobre o conforto de saber que existe o mistério e que ele aquieta os tormentos da dúvida, afinal, as saídas são mais simples, quando se pensa que tudo é obra divina, inclusive o descompasso dos passos da mulher do lexotan, alheia, correndo com os cabelos em choque, ela tem plena certeza que acabou de assistir ao domingo maior e caiu de pára quedas na beira mar as 8 da manhã. Portanto ela segue e eu também, junto as melaninas que se atiçam a cada lambida do sol. Seguimos amparados na certeza de que haja, para tudo, um propósito, seja ele qual for. Então penso sobre o que me ampara? A palavra? Ou o fato dos outros estarem amparados me conforta por não estar nessa sozinho? Enfim, perguntas.

Somos, eu, a amada, o italiano que leva um basset, o velhinho que se parece com Caymmi, a Lexotan, todos, culpados. Carregamos, junto aos pulmões, a cada respiro, uma culpa, que se aloja em nossa necessidade de sermos infelizes. Cada um em seu tênis para cooper, todos tristes por nossa condição tão perseguida e dotada de parâmetros obscuros. Foi ali, em frente aos pescadores do Mucuripe que pensei: Não acredito mais nele, sobretudo em suas religiões. Elas não são como aqueles barcos, que trazem peixes, nem como a força do trabalhador da construção civil, tijolo a tijolo, nem o sorriso leviano do garoto do coco ou os “bom dias” sem respostas do homem que corre a beira mar inteira, todos os dias, quem sabe há quantos meses, va lá, alguns anos; quem sabe esse homem, que cumprimenta um por um, mesmo sem respostas, seja a representação burlesca da vida.

3 comentários:

Li Pizzicato disse...

excelente.

Anônimo disse...

E no entanto é tão confortável pensar que nunca estamos sozinhos, e que as nossas lágrimas vertidas na escuridão significam alguma coisa, também, para Alguém que nos entende melhor do que nós mesmos...

Giovana Demai. disse...

Olá querido.
Se puder faça uma visite em meu blog
Obrigada,

http://giovanademai.blogspot.com/